segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O hospitalismo de Spitz

René Spitz, psiquiatra infantil com formação psicanalítica, desenvolveu um conjunto de pesquisas em crianças que, durante os primeiros doze meses de vida, permaneceram um período prolongado numa instituição hospitalar ou num orfanato, privadas da presença da mãe. Estudou as consequências e concluiu que os bebés apresentavam perturbações somáticas e psíquicas como resultado da ausência completa da mãe numa instituição em que os cuidados são administrados de forma anónima, sem que se estabeleçam laços afetivos. Do ponto de vista do cuidado físico, estavam asseguradas as condições fundamentais de higiene e de alimentação; do ponto de vista afetivo, constatou uma carência afetiva total, porque cada adulto tinha à sua guarda várias crianças.

Spitz designou por Hospitalismo o conjunto de perturbações vividas por crianças institucionalizadas e privadas de cuidados maternos: atraso no desenvolvimento corporal, dificuldades na habilidade manual e na adaptação ao meio ambiente, atraso na linguagem. Constatou que é menor a resistência às doenças e que, nos casos mais graves, pode ocorrer a apatia. Os efeitos do Hospitalismo, presentes nas crianças que foram abandonadas em orfanatos ou asilos, são duradouros e muitas vezes irreversíveis.

Com as investigações Spitz confirmou a necessidade de laços e de contatos afetivos entre o bebé e o adulto, especialmente entre a mãe e o filho; a sua ausência pode conduzir a perturbações emocionais, comportamentais e desenvolvimentais graves.

Recentemente, as suas conclusões foram confirmadas por estudos desenvolvidos nas crianças encontradas nos orfanatos romenos, sobrelotados, depois da queda de Ceausescu, na Roménia, em 1989. A maior parte das crianças com 2 e 3 anos não conseguia andar ou falar, manifestando um comportamento passivo sem manifestação de emoções.
A ausência de uma relação privilegiada com a mãe ou com um agente maternante, isto é, um adulto que a substitua, tinha como consequência a recusa em se alimentar, a perturbação do sono, a manifestação de comportamentos ansiosos. O desenvolvimento normal da criança ficava comprometido. O sentimento de abandono e ver-se sem uma figura securizante comprometia o equilíbrio das crianças. Seria graças à relação privilegiada com um adulto que o bebé desenvolveria estratégias de adaptação ao meio.
                                 
Estas conclusões levaram a Organização Mundial de Saúde, em 1950, a incluir nas suas orientações um documento – Cuidados maternos e saúde mental -, onde se afirma:

“… fica claramente demonstrado que os cuidados maternos no decurso da primeira infância desempenham um papel essencial no desenvolvimento harmonioso da saúde mental”

No início do século XX, a grande preocupação dos responsáveis por instituições de acolhimento para crianças era a de assegurar condições de higiene que reduzissem as elevadas taxas de mortalidade e de doenças infecto-contagiosas que se verificavam nesses lugares. Esta preocupação remetia para segundo plano a questão das necessidades sócio-afetivas das crianças dessas instituições. René Spitz (1887-1974) foi uma das primeiras vozes a chamar a atenção para este erro. Defendeu mesmo, como já foi salientado, que a ausência de carinho, de laços verdadeiramente humanos e de cuidados de tipo maternal eram os principais fatores responsáveis pela mortalidade das crianças de tais instituições. Para Spitz, a privação afetiva precoce provocava dor psíquica (depressão) e acontecia, por exemplo, na sequência de longa hospitalização da mãe ou da criança.

Quando a rutura da relação afetiva era parcial e passageira, acontecia a depressão anaclítica, uma ausência de estimulação afetiva que era reversível, ou seja, que cessava no momento do reencontro entre a figura materna e a criança. Quando o rompimento do vínculo afetivo era duradouro e total, sucedia uma privação emocional a que Spitz deu o nome, como já foi mencionado, de hospitalismo. Traduzindo-se numa separação prolongada ou total, o hospitalismo pode ter efeitos irreversíveis, provocando, sobretudo se acontecer nos primeiros 18 meses de vida, atrasos no desenvolvimento a todos os níveis.

  in https://sites.google.com/site/lacospsychelogos/vvv/psicopatologia/a-psicpatologia-e-os-autores---pagina-principal/rene-spitz---hospitalismo

Competências do recém nascido


 
O nascimento é o momento em que o bebé se despede definitivamente do seu mundo escuro, calmo, húmido e quente designado por útero materno, para entrar num mundo luminoso, arejado e repleto de estimulação ambiental,  que o acolherá no seu percurso de desenvolvimento e crescimento, ao longo da sua vida. Os primeiros 28 dias após o nascimento são designados por período neonatal, em que o bebé é também conhecido por recém-nascido.
Um vez cá fora, o recém-nascido irá recorrer a diversos mecanismos intrínsecos, ou seja, vai fazer uso das suas capacidades sensoriais, os cinco sentidos, de forma a que a sua adaptação à vida extra uterina decorra de forma saudável.

Como é que o recém-nascido utiliza os cinco sentidos?

Durante muito tempo, pensava-se que um recém-nascido fosse somente capaz de comer e dormir. No entanto, através de diversos estudos de comportamento do recém-nascido, pouco a pouco foi-se desvendando o mundo das sensações que um bebé é capaz de perceber, para além das suas formidáveis habilidades instintivas.

Como é que ele nos vê?

 Logo após o nascimento, os seus olhos estão inchados e vermelhos, sendo este facto considerado normal, tendo em consideração as contracções que todo o seu corpo teve de sofrer durante o parto. No entanto, apesar destas características físicas, o bebé é, desde o primeiro minuto de vida, capaz de evidenciar a sua capacidade de visão. Alguns dias depois do nascimento, o seu rosto já está totalmente relaxado, as suas pálpebras desinchadas e os seus olhos começam então a focalizar o mundo.
A visão é ainda um pouco imprecisa, pois o olho encontra-se ainda estruturalmente incompleto aquando do nascimento, conseguindo focalizar somente aquilo que está próximo do seu rosto, aproximadamente uns 20 a 25 centímetros para além da ponta do seu nariz. Note-se que o que ele precisa ver neste momento da sua vida está bem próximo do seu rosto: o seio e o rosto materno.
Verifica-se que o recém-nascido reage à luz, respondendo com o piscar de olhos ao mínimo estímulo. Prefere objectos que se movam, seguindo o seu movimento com os olhos e, por vezes, movendo mesmo a cabeça, na direcção da deslocação do objecto.

Como é que ele nos ouve?

Nos últimos meses de gestação, a capacidade de ouvir do bebé já está completamente desenvolvida, sendo que, aquando do nascimento, todos os componentes estruturais do ouvido já estão totalmente maduros. No entanto, a  mielinização é ainda imatura e a actividade cortical associada à audição é ainda incompleta. Esta falta de integração é responsável pela resposta generalizada do recém-nascido aos sons.

O recém-nascido reage a um som intenso, apresentando o reflexo de susto ou de sobressalto, enquanto que, face a sons de baixa intensidade, simplesmente não reage. Prefere os sons agudos, em especial o som da voz da sua mãe, que geralmente lhe fala num tom característico, que ele reconhece desde os primeiros minutos de vida.

Qual a sua sensibilidade táctil?

O tacto é o sentido que mais precocemente começa a funcionar no bebé, ainda enquanto feto. A maior parte da estimulação que o bebé sente, ainda no ventre materno é cutânea.
Com a evolução da gestação, torna-se sensível à estimulação das zonas mais superficiais, numa sequência ordenada do desenvolvimento (região oral, genital, superfícies palmares e plantares e finalmente regiões intermediárias).
Após o nascimento, o recém nascido já tem o sentido táctil completamente formado, verificando-se uma resposta perfeitamente adequada quando em contacto com estímulos como a dor, pressão, calor, frio.
As zonas mais sensíveis ao toque são os lábios e as bochechas. Note-se que, quando tocamos a bochecha do recém-nascido, este responde com um gesto intuitivo de procura de alimento. Da mesma forma, responde ao toque dos lábios com movimentos de sucção. É através da sua boca que o bebé explora o que o rodeia, consegue conhecer os objectos através do contacto com a língua, os lábios e as gengivas, e não com a mão, como seria de esperar.

Será que consegue distinguir cheiros diferentes?

O olfacto é também um dos sentidos desenvolvidos no recém-nascido. Quando um novo odor é apresentado, ele mostra interesse, movendo a cabeça. O nível de actividade e taxa cardíaca sofrem alterações. Aos seis dias de vida, o bebé reconhece o cheiro da sua própria mãe.
Um pesquisador infantil estudou isto em pormenor, usando pequenas almofadas de gaze. Este pesquisador, de nome Macfarlane, colocou compressas embebidas em leite materno, uma em cada lado do rosto do bebé: uma continha leite da sua mãe e a outra leite de uma outra mãe. Com esta experiência, verificou que os bebés que mamavam ao peito reconheciam ou moviam-se na direcção da gaze com leite das suas mães. Constatou ainda que, aos seis dias de vida, os bebés viravam-se muito mais para a gaze do seio das suas mães do que para uma almofada de gaze limpa ou para a gaze do seio de uma outra mãe. Todavia, e por curioso que pareça, quando o leite materno era colocado numa gaze não usada pela mãe, os bebés não demonstravam preferência. Aparentemente, os bebés respondem ao cheiro especial da própria mãe e não necessariamente ao cheiro do leite.
Qual a sua sensibilidade ao paladar?
Assim como os outros órgãos sensoriais, o paladar é também altamente desenvolvido no bebé ao nascer.
Estudos demonstraram que o recém-nascido prefere sugar alimentos doces e evidencia desprazer com líquidos levemente salgados, ácidos ou amargos.
in http://usf-vitasaurium.min-saude.pt/EducacaoSaude/SaudeCrianca/Paginas/CompetenciasRecem.aspx