segunda-feira, 18 de maio de 2009

A questão das dicotomias em psicologia

Na tentativa de compreender o ser humano, os psicólogos foram fazendo investigações e recolhendo dados de outras ciências com que a psicologia mantinha afinidade. Porém, apesar do seu esforço de cientificidade, não souberam escapar a exageros como, por exemplo, acantonarem-se em posições extremadas e unidireccionais. Tais posições nem sempre contribuíram para chegar a concepções adequadas do ser humano, originando, antes, acentuadas dicotomias, tendentes para empolgadas perspectivas parcelares.
Deste modo se constituem como questões sobre a determinação do comportamento e do desenvolvimento humano as polémicas entre inato e adquirido, entre a concepção de continuidade e descontinuidade no mundo dos seres vivos, a querela entre estabilidade e mudança do comportamento e da identidade ao longo da vida e a discussão entre os processos internos e externos.
Inato/adquirido

Alguns psicólogos advogam que a constituição e os procedimentos psicológicos e comportamentais do ser humano se efectuam a partir de mecanismos inatos, normalmente de natureza fisiológica. Assim, o sexo, a constituição física e morfológica, o funcionamento dos sistemas nervoso e hormonal são elementos inatos que se inscrevem numa estrutura hereditária básica. Ter um potencial genético para ser alto ou baixo, loiro ou moreno são factores que, segundo os psicólogos de tendência inatista, influenciam o desenvolvimento dos seres humanos. E, consequentemente, repercutem-se no modo como se situam no mundo, e agem sobre ele.
Diferentemente, outros psicólogos são de opinião que o ser humano é essencialmente construído pela acção de factores externamente adquiridos. O desenvolvimento do ser humano processa-se à medida que o organismo vai reagindo a estímulos provenientes do meio.
Para estes psicólogos, as experiências e as aprendizagens são insubstituíveis factores de aquisição de estruturas que possibilitam a cada ser humano as adaptações adequadas à sua sobrevivência e continuidade.

Continuidade /Descontinuidade

São muitos os investigadores que enfatizam a continuidade. A evolução das espécies e a transição para o homem ter-se-iam dado sem saltos bruscos, por processos caracterizados pela constância e uniformidade.
Recusando, ou pelo menos, desvalorizando as etapas e as categorizações estanques, estes psicólogos assumem a ideia de que dividir a existência em parcelas delimitadas não é procedimento que possa aplicar-se á explicação da realidade em geral, e de modo especial, ao todo uno, vivo e contínuo que constitui a vida a humana.
Também é possível deparar com modelos explicativos que, de modo diverso, recorrem aos conceitos de descontinuidade, evidenciando etapas evolutivas quer sob o ponto de vista filogenético quer ontogenético. Os psicólogos com esta postura mental pressupõem que a existência humana decorre por estádios qualitativamente diferentes que, por efeitos de maturação orgânica, se vão sucedendo do momento do nascimento até à velhice. Também em relação aos seres vivos, tendem a estabelecer fronteiras rígidas entre as diversas espécies animais e, particularmente, entre estas e o homem.

Estabilidade/Mudança

Os defensores da estabilidade ancoram-se em teses filosóficas relacionadas com a concepção metafísica de uma natureza humana imutável. A formação dos seres humanos decorreria, assim, de modo linear, e, por maiores que fossem as mudanças e acumulações ao longo dos anos, não passariam de meros acidentes, incapazes de afectar o lastro seguro, sempre eterno e inabalável - a essência humana. As mudanças não passavam de aparências, impotentes para aniquilar o carácter preformado da constituição racional do homem. No campo da psicologia, é possível encontrar investigadores que evidenciam a estabilidade, por exemplo, a presença de factores inatos e hereditários, a manifestação de instintos, ou a consideração da constância de caracteres da personalidade individual. A estabilidade permitir-nos-ia pressupor, por exemplo, o que esperar das pessoas com que nos relacionamos, pois que as suas atitudes seriam consistentes, de molde a não desmentirem as qualidades que lhes atribuímos.
Outros estudiosos consideram o homem como uma realidade em mudança, sujeito a alterações profundas no modo de ser e reagir. Consideram o homem como um processo dinâmico que, muitas vezes, se vai construindo de forma crítica e turbulenta, como reflexo vivo das ocorrências e vicissitudes do meio. Quando, na adolescência, o jovem aspira à construção da sua identidade, nunca consegue edificá-la de modo padronizado e linear. Há procuras, há instabilidades, há crises e indecisões, e o adolescente defronta-se com inúmeras situações conflituosas que tem de resolver.

Interior/Exterior

A dicotomia interno/externo instala-se na psicologia, por exemplo, a propósito dos processos de controlo ou causas do comportamento, que tanto podem ser interiores como exteriores.
No primeiro caso, a sede do controlo reside no próprio indivíduo. A liberdade do indivíduo, a sua vontade, a responsabilidade, o poder de decisão, a autodeterminação quanto ao que pretende fazer são várias manifestações de um poder interior quanto ao controlo dos comportamentos humanos.
No segundo tende-se a encarar o indivíduo como um ser privado de liberdade, afectado por toda a ordem de condicionalismos, incapaz de decidir por si os seus actos. Enfatizar os factores externos é sublinhar a dependência do ser humano de agentes que o controlam, como por exemplo, as situações, as circunstâncias, os outros, o destino, a sorte ou, mesmo, um agente sobrenatural.

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